terça-feira, 3 de junho de 2014

Novo Ano



Tangem sinos, sirenes tocam e abre-se o champanhe pelo novo ano...
há música no ar e ouvem-se as vozes dos que festejam.
Apoiada na janela, observo o céu nocturno pejado de luzes multicoloridas que chovem sobre mim quais lágrimas de anjos que pranteiam o mundo cá embaixo.
E olho também as estrelas andróginas a brilhar através do tecto escuro que me cobre.
Uma dessas lágrimas tocou-me na face, indescritivelmente fria, lembrando-me de respirar antes de ficar sufocada pelo ar de inverno.
Apertei a capa contra o corpo, fechei os olhos,
e enquanto os meus lábios libertavam o fumo branco do frio da noite,
deixei que a minha alma se soltasse para alcançar aquelas luzes, além do céu tão escuro...
... E é um mundo tão diferente no céu!
Cintilações minúsculas de vida dançam e sorriem todas as noites, enquanto esperam o sol nascer, para descansar...
e ali, também a minha alma dançou, como num salão de baile, mas com o cabelo brilhante de orvalho, num vestido de negro cetim esvoaçante,
que girava e girava como se ouvisse uma valsa qualquer vinda de um violinista solitário que toca lá muito embaixo, na rua.
Quem sabe o que pensará ele enquanto os meus pés alados seguem a sua melodia?
Deixei o meu corpo à janela, quem sabe, os seus olhos podem ver-me aqui agora, livremente pairando entre mundos.
Pois só a minha alma não pode ser atada, sem conceitos para detê-la
nem sequer o tempo a pode controlar.
Percorre as galáxias como nómada, dança livre sob a chuva colorida
e bebe-a sequiosa, até lhe ser oferecida uma taça de espumante dourado
que aceita, como que representando um papel predestinado
numa peça que Shakespeare poderia ter composto...
Estaremos todos apenas esperando para nos tornarmos parte dessa miríade de pontos luminosos
que desafiam a gravidade, girando e girando em contínua música de esferas
num espaço sem tempo, que preenche a eternidade a luz e cor,
explorando este universo como qualquer mortal só se atreve a fazer, sonhando?
Enquanto o mundo já dorme na madrugada do ano novo,
e o meu corpo arrefece na janela,
a minha alma agora só, esvoaça até aos limites infinitos das galáxias, numa elegância extravagante.
Sim. Estamos todos à espera para ser uma estrela
e participar nesta peça que desafia a compreensão:

- Era uma vez a alma de um sonhador.....

SLL

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