terça-feira, 3 de junho de 2014

Ano Comum



A dois dedos da poesia, a um palmo do infinito. Íntima vigília,
esta, em que fecho os olhos à noite e todos os camelos passam
pelo buraco da agulha. Um arcebispo salta de uma nuvem para
olhar-me nos olhos quase pardos, palermas e sem dom.
Na imensa árvore da madrugada os ramos estão desiludidos, fa-
tigados, cheios de remorso. O arcebispo meneia-se, vestido de
branco, maduro e pobre. Pobre arcebispo maduro e pobre, que
se meneia vestido de branco, era o que eu devia pensar, mas não
é o que eu penso.

Evita-me um pensamento desses o orgulhoso pássaro matutino
que vem vindo, voando e vindo, lindo, lindo, lindo.
Ó pássaro da manhã, pássaro de amanhã, pássaro misterioso
que regressas ao ninho sobre o fio das minhas pálpebras. Sabes
como eu amo as tuas asas, como eu invejo as tuas asas, como
as tuas asas são as dos homens que não querem estar sozinhos.
Quando te vejo, o meu coração tem o tamanho de um menir, e
o meu corpo quase não se sente. Sobre os meus ombros perma-
nece o deslumbramento. Porque nenhum dos dias é igual a outro.
E a minha felicidade, a minha imensa felicidade, está a dois pas-
sos da poesia e a um palmo do infinito.

Joaquim Pessoa in Ano Comum

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