terça-feira, 3 de junho de 2014

Confissão de Joana d'Arc



Levanto os olhos ao céu azul e ainda vejo a minha armadura brilhar de tão alva...
Sim, eu sei que ultrapassei todas as restrições e barreiras
e as visões que os meus olhos viram
a mais ninguém pertencem.
Não há homem ou mulher que veja assim como eu...
Não preciso de um sexo para me afirmar,
podem ver em mim macho ou fêmea conforme lhes aprouver,
porque eu sou como os anjos. Eu defino-me.
A minha têmpera é tão aguçada como a de qualquer homem
e a minha voz forma um grito de batalha que Deus reconhece.
Fui guerreira em época de lutas
porque mais ninguém levantaria a sua espada para curar a terra e a humanidade.
Enfrentei o inimigo no campo de batalha,
e nas cortes cruéis de gente empedernida
numa época de costumes escritos por um idiota qualquer.
Talvez num outro tempo, além no futuro eu pudesse ser livre.
E agora, aqui estou no meu próprio campo de morte
o tempo deixa cair a areia da sua ampulheta, as chamas esperam-me
e eles dizem que vou arder no inferno.
Mas que inferno será esse, que acolhe os justos?
Será o ser eu mesma assim tão perversamente horrível?
Quais serão as normas em tempo de guerra,
numa época de batalhas que não tem fim?
Reinos ascenderão e vão cair como árvores abatidas,
mulheres serão mortas, estupradas,
idosos e crianças violentados na sua essência e eu...
eu já nada poderei fazer.
Não consegui ensinar os homens a respeitar a vida.
Deixem-nos chamar-me bruxa e herege, não me importa,
eu conheço meu coração
e tenho as setas do amor penduradas na aljava...
e, para onde quer que eu vá
trarei ainda a batalha nas almas de quem ficar.
Ensiná-los-ei a lutar contra aqueles que temem a justiça e a verdade
porque eles não me podem fazer curvar,
eu não sou mulher nem puta,
mas uma forma qualquer de anjo que Deus entendeu enviar
para terminar o ciclo interminável de dor dura
e os justos conhecerão a dignidade da minha alma!

SLL

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