terça-feira, 27 de maio de 2014

O Outono



…O OUTONO só tem três cores, diz o Santiago. Três é uma forma de dizer, há muitas mais, mas para ele aquelas três cores são o Outono. É o que diz à Laura quando vai passear com ela no jardim. Diz-lhe que as cores são o amarelo quente, cor de açafrão, o castanho doce, cor de mel, o vermelho nobre, cor de ameixa. Estas são as três cores de um quadro chamado Outono, e o pintor é o vento, que as mistura, que as mescla sem ordem. O Outono é um quadro sem moldura, pode-se viver dentro dele, diz o Santiago. De mãos dadas, Laura está cativa das suas palavras, com o mesmo encantamento que ele tem pelos seus dedos quando toca harpa. Ele deseja-lhe os dedos, ela deseja-lhe os lábios que são tocados pela poesia, por isso beija-o, ali mesmo, no meio do jardim, à luz do sol, aos olhos de quem passa, aos olhos da irmã, Maria, que vem mesmo atrás e deixa escapar um ligeiro tossir. Santiago engole o beijo e diz à Laura que o Outono é a sua estação do ano preferida. Porquê? Porque, responde ele, as árvores dançam umas com as outras ao sabor do vento, como se fossem jovens casadoiras num baile de aldeia. E sente-se sempre um rumorejar, como se falassem entre elas. No Verão as árvores são mudas, têm medo que os pássaros oiçam as conversas; mas no Outono ninguém as cala, são tão tagarelas que nem sentem perder as folhas, só quando ficam nuas, cor de Inverno, é que emudecem de vergonha. Nesta altura do ano, as árvores têm sempre uma ramada que nos acena, nos cumprimenta, nos oferece folhas douradas. Parecem gente…

João Morgado In: Diário dos Imperfeitos

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