terça-feira, 27 de maio de 2014

Acordar Tarde



Tocas as flores murchas que alguém te ofereceu
quando o rio parou de correr e a noite
foi tão luminosa quanto a mota que falhou a curva
- e o serviço postal não funcionou no dia seguinte
procuras ávido aquilo que o mar não devorou
e passas a língua na cola dos selos lambidos por assassinos
- e a tua mão segurando a faca
cujo gume possui a fatalidade do sangue contaminado dos amantes ocasionais
- nada a fazer irás sozinho
vida dentro os braços estendidos
como se entrasses na água
o corpo num arco de pedra tenso
simulando a casa onde me abrigo
do mortal brilho do meio-dia

Al Berto, Horto de Incêndio

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