terça-feira, 27 de maio de 2014

Dia 348



Sobre os meus ombros, e na escura sombra dos meus olhos,
se forma uma imagem que dispensa a simetria. O mais antigo touro cruzou o dia e impressionou Neruda, que o seguiu até onde vive o mar.
Agora, dentro de mim, tudo é simplesmente humano.
Nem druída, nem mago, nem adivinho. 
Leio apenas nas entranhas do amor. 
Cada vez mais silenciosamente, cada vez mais infinitamente, de tanto amar, de tanto amor, só não quero o que deixarei de ser. 
Da secreta verdade, quero a verdade apenas.
Das coisas luminosas e azuis, hão-de bastar-me as coisas.
No centro de mim há uma quietude onde não poderá caber nenhum orgulho.

E se uma estrela arrefecer, não é já no meu sorriso, não é já na minha mão. Nela, caberá apenas a tua, essa mão verdadeira, real e fria, que o meu amor se esforça por aquecer.
O resto é procurar o céu dentro de um poço. Onde inutilmente se busquem estrelas afogadas, sem que alguém possa encontrá-las e dizer: "Vejam o que achei!". Serão só pedras. As mesmas pedras pelas quais haverá sempre quem corra a afirmar que são pedaços de lua. E não são.
Serão apenas as mais simples pedras do reino humano, forjadas no vulcão dos sonhos, e nas quais os olhos não conseguem vislumbrar mais que pedras, prontos apenas para transformar distância em culpa, e em memória, e numa súbita vontade de chorar profundamente, até me sentir irmão de mim.
Tudo se aproxima e tudo se vai embora. Por isso, escondido,
perdido na floresta, apenas esse pássaro de mim faz ninho,
tão livre e concentrado como se fizesse amor.

Joaquim Pessoa in - Ano Comum

Sem comentários:

Publicar um comentário